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Jodhpur, a garrida cidade azul

Jodhpur começa à noite. Na estação suja de gente e de sarna, onde os comboios se esperam a sono solto, em catres imundos, a monte.

Acorda-se num rickshaw barulhento que atravessa a cidade azul. Uma terra de mercadorias às costas e pregão carregado, onde a miséria é mais espevitada e o lixo cheira ainda mais a lixo.

Se Jodhpur fosse uma tapeçaria, era azul. Tinha altos-relevos bordados em amarelos-torrados, horizontes laranja e cruzava-se a malha em quadrados índigo. Mas como as linhas da tapeçaria se fazem de outros tantos fios, nestes retorcidos todos, entre cores garridas, tecidos esvoaçantes e trapos descorados, os fios de pontas reviradas preenchem os quadrados azuis sem grande ordem ou esquadria, estão para lá costurados, remendados, descosidos. A tapeçaria já não é lavada há muito tempo. Há nódoas feias, há zonas surrentas e encardidas e tudo se dilui neste azul tranquilo, de forte, de feiras, de casas, muralhas e palácios reconvertidos, onde se apura masala e se queima o Jasmim. E quando anoitece a tapeçaria azul vira manta de retalhos de gente.

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Carne fresca em Nova Delhi

Do aeroporto à estação de metro de New Delhi estranha-se o calor húmido e as poucas dúzias de indianos que neste extremo da cidade mexem. Tudo é inesperadamente normal, quase desapontante, mas é a partir “deli” que começa o choque.

Saímos do metro e batemos com a cara na estação de comboios de New Delhi. Uma porrada de gente, filas indianas que nunca mais acabavam daqueles que julgávamos serem os “famosos” “intocáveis”. Na verdade só eram indianos comuns à espera de embarcar em comboios apinhados. E porque o alerta era vermelho e a segurança apertada, as filas compridas eram para ser cumpridas, à risca. Rondavam as lines autênticos cães de guarda de chibata em riste e ai de quem fugisse da lei e da ordem. Nem uma foto tirámos.

Depois embatemos com o medo – o medo do sistema. Não saber se as coisas podem realmente acontecer. Não saber em quem confiar. Ditos, não ditos e desditos num clima de ar rarefeito e os sentidos todos baralhados. Há demasiada informação para absorver. Barulho, ruído, o som e a fúria. Tudo choca, tudo nos choca como se estivéssemos numa pista endiabrada de carrinhos de choque. E ficámos perdidos num trânsito sem horas, de buzinas sem lei. Verdadeiras baratas tontas enlatadas, num rickshaw cheio de estrica, naquele ataque de nervos de cidade.

E por entre encontrões, empurrões, pisadelas e escarradelas, chegámos à velha estação de Delhi. Um tiro pela culatra de estação. Só queríamos sombra, assentos e paz de alma. Mas apanhámos com um ror de indianos, mais as trouxas dos indianos, mais a família toda dos indianos, mais a preguiça toda dos indianos, mais a lixeira toda dos indianos, mais as moscas, os mosquitos e os besouros indianos. Acabámos por nos remediar num encosto à sombra de uma venda de batatas fritas e bolachas de manteiga. Amarelos e desidratados éramos alvos fáceis para os olhares curiosos que nos rondavam como se fôssemos carne fresca, acabadinha de chegar.



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