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Todos os cabelos vão dar a Londres

(A Rute foi passar uma semana a Londres e foi o que bastou para ficar com a cidade pela ponta dos cabelos. E que cabelos!)

Londres já não é novidade, pelo que qualquer artigo sobre a cidade da ginger beer soa a redundância. A não ser que juntemos uma crónica de Pasolini lida no avião a uma conversa de autocarro com uma British ma’am de 84 anos. Eis Londres ao acaso.

“A primeira vez que vi os cabeludos foi em Praga. No ‘hall’ do hotel onde estava hospedado, entraram dois jovens estranhos, cujos cabelos lhes chegavam aos ombros. (…) Nenhum dos dois disse palavra. (…) Aquilo que substituía a tradicional linguagem verbal e a tornava supérflua (…) era a linguagem dos cabelos.” Assim começava Pier Paolo Pasolini, em 1973, a ver nos cortes, formas e tons de cabelo pontos de manifestação social, através de uma “violência não violenta”.

O que mostram os londrinos no cabelo? Que ninguém os pára, que ninguém lhes trava a liberdade, que o mundo pode ser da forma e da cor que eles quiserem.

1 – Chinatown e os prazeres pontiagudos

“Models.” Lê-se em várias portas da microlândia chinesa em Londres. Pelas 2h da manhã, subimos as escadas íngremes, batemos na porta branca e uma mulher de calças pergunta o que desejamos. “Modelos”, claro! “No… We don’t have that kind of models… Here, is just for sex.” Os ingleses são muito “straight”. Não há cá cubos de gelo. Se queremos sexo, muito bem. Agora, modelos para fotografar, só numa agência.

Chinatown é isto, mas também são cozinhas que cheiram bem, acordes de néons, vitrinas kitsch, cabeleireiros, lojas de produtos naturais, massagens a partir de três libras e mulheres orientais de fazer cair o queixo. Vale a pena viver o bairro a diferentes horas do dia e da noite.

2 – Whitechapel: do cabelo ao véu

A viagem até Whitechapel deve fazer-se no primeiro andar de um autocarro vermelho, para ver como Londres se vai “camaleando”. Do bairro português, saltam letreiros de bacalhau e Benfica; das ruas negras, perucas e unhas falsas. À chegada, a mesquita de East London impõe-se, ladeada pelas lojas de doces árabes, cartões de chamadas telefónicas, túnicas e bugigangas. Os penteados são lenços e burqas.

À segunda-feira, um homem cujo nome não sabemos pronunciar nem escrever deixa “os ocidentais” darem uma voltinha pela maior mesquita londrina. Basta pedir o número de telemóvel no guichet do Centro Islâmico, mesmo ao lado, e marcar. Fomos lá a um domingo, mas, à socapa, ainda deu para ver as salas (a dos homens e a das mulheres) forradas a alcatifa bordeaux. E ainda saímos com o Corão debaixo do braço, oferecido pelo senhor simpático que aspirava a dita alcatifa. O bom do domingo é que, mesmo ao lado, perto da saída da estação de Shoreditch, há um mercado de quinquilharia, tecnologia roubada e cerveja barata.

3 – Brixton cheira a Hendrix

Bons pedaços como Bowie, van Gogh, Hendrix ou mesmo Damien Hirst viveram em Brixton. E não o fizeram, com toda a certeza, só porque os flats eram mais baratos (muitos são daqueles com terraços que servem de armazém de ilegalidades e parecem dar para saltar de uns para os outros, entre o arame farpado).

Mal saímos do “tube”, cheira a marijuana. Brixton é uma tisana pegada, pelo que ficamos ourados só de deambular no primeiro quarteirão. A Jamaica instalou-se aqui nos anos 1950 e, agora, os talhos do mercado (e que belo mercado!) passam reggae, as paredes respiram cores garridas e as tranças roliças enchem os olhos dos visitantes.

Para comprar vinis e assistir a concertos, Brixton is “the place”. Aconselhamos vivamente o Hootananny, no 95 da Effra Road, que aos domingos tem concertos gratuitos onde rola muita fusão: afrobeat, jazz, reggae, dub, blues, música e música tribal.

4 – A rua é no leste

É em East London – Shoreditch, Bricklane e Hackney – que a street art fervilha. Toda a cultura de rua – e cabelos debaixo do boné – tem pujança e contexto suficientes para se rasgar nas paredes. Como prova o senhor Banksy, que tem deixado muitas marcas por estas redondezas.

Na Bricklane, há galerias e lojas de roupa em segunda mão que fazem o gosto ao olho. Há cafés a vibrar de style e pastelarias com bolos na casa dos cêntimos. Numa rua transversal, aparece-nos a Rough Trade, bom lugar para perder a cabeça e sacar vinis “upa-upa” a preços para bolsos tugas.

Em Dalston, o Dalston Eastern Curve Garden (www.dalstongarden.com) oferece uma esplanada junto a alfaces, numa antiga estação de comboios abandonada. É um espaço de cultivo criado no âmbito da Design for London, para colmatar a falta de verde sentida pelos moradores. Lá dentro, também funcionam os V22 Studios, atelier de artistas onde é possível ver o work in progress acontecer.

5 – Portobello Market e a apple pie por comer

E para não dizerem que só andamos na “sublondon” e não damos margem à cidade para ser bonitinha e oferecer montras aperaltadas, mini-saias e scones, é claro que recomendamos um passeio junto ao Tamisa, um “vagueanço” pela Oxford Street e um olhar prolongado nos prédios altos e envidraçados (sem cortinas) de Barbican.

Também vale a pena pontuar Notting Hill – quanto mais não seja pelo mercado de Portobello, que nos coloca a boca nos olhos a cada passo. Ali, a couve-flor é uma flor, os frutos silvestres são lábios de boneca e os bolos levam recheios de descuidar as bochechas. Mais: há casacos de inverno muito “poche” (a palavra do momento em Londres) por menos de dez euros.

Nas imediações da Portobello Road, existe um café com mesas brancas de plástico e um menu variadíssimo de tartes, cafés e chás a bom preço. Encantadoramente, não é um pub, não é um bistrôt, não é uma casa italiana: é um simples tasco inglês! Descubram a apple pie caseirinha e depois tragam a morada, que nós só não nos esquecemos de trincar a maçã como de apontar o endereço. (Em qualquer viagem, é sempre conveniente deixar algo por fazer, como pretexto para voltar.)

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A cidade dos decker buses

A Francisca, menina dos desenhos, quis ir aprender as cores e o estilo à cidade dos double decker buses. Durante quatro anos aprendeu muita coisa e hoje está de regresso a Lisboa, com a cabeça fresca e cheia de projectos. Nós pedimos-lhe um bem pequenino – traçar dois dias em Londres, com direito a desenho e tudo.

Sugestão de dia e meio (senão dois cheios) em Londres.

Comecemos então pela chegada. Depois do conforto de largar as malas no quarto, vão querer vestir umas botas janotas mas  confortáveis. Durante o dia aconselho a viajarem de autocarro. Londres é uma cidade de pequenas e maravilhosas surpresas, para todos os gostos mas mais ainda se tivermos os olhos postos na rua durante as viagens curtas. Isto porque uma das coisas mais satisfatórias, a meu ver, é descobrir o quão perto as coisas são umas das outras. Mundos distintos colados uns aos outros, com várias passagens secretas. E durante a noite? Fácil, é o mesmo! É só procurar o símbolo “24h” (ou o da meia lua) para identificar se o autocarro nº X tem serviço nocturno.

Chega de introduções, o melhor é dar a corda às botas. Chegaste de manhã? Põe-te logo no centro centro – Oxford Street – e lá encontras o Breakfast Club, numa das perpendiculares mais calmas. Nas redondezas vais encontrar o Photographers Gallery que tem uma loja apetitosa de fotografia. Perde-te ou passa pelas montras do Selfridges e faz parte do grande movimento da cidade em primeira mão. Queres sentir mais movimento ainda, e na verdade até gostavas de espreitar o frenético metro de Londres? Então faz uma viagem de metro até Covent Garden (que abriu ao publico pela primeira vez um 1907). Mas atenção, à chegada, é favor não utliizares escadas, mas sim o elevador, se não queres que o itinerário do primeiro dia acabe aqui.

Em Covent Garden visita o mercado, vê actuações de rua e visita, Lush, uma loja de sabonetes que dão vontade de comer.

Se tiveres com larica e fores fã de legumes visita uma casa de comida vegetariana, pertinho de Covent Garden, a Seven Dials. Por fim, e pela zona, procura a Neal’s Yard, uma pequena passagem bem escondidinha, que se pode descrever em três palavras: cores, cores e cores.

Ao final da tarde sugiro um passeio mais tranquilo. Agarra no teu mapa e desce umas poucas ruas até à ponte –  Waterloo Bridge e passa para o outro lado – Queen’s Walk. A esta altura o sol já se põe, e é aqui, nesta mesma ponte que me vais dar razão por te ter ‘escrito’ para largares o metro de vez em quando. Passada a ponte, tens várias hipóteses à tua esquerda: Feira nessa rua (caso tenhas sorte)  e músicos (caso lá estejam) são sempre recomendados. Um café num banco ou uma pint num pub em frente ao rio, sobre as árvores iluminadas também é bastante recomendável.

Se ainda estás cheio de pedalada visita a Hayward Gallery e o BFI. Um dos segredos deste centro com cinema e galeria é que há uma pequena sala onde podes ver documentários grátis, quantos quiseres, o tempo que quiseres! Para jantar recomendo um restaurante oriental chamado ‘Ping Pong’ onde se come dim sum, uma boa recompensa num dia frio. Já que o metro mais perto para a volta é Waterloo, segue viagem até lá. Passa a estação por fora e dirige-te a um destino final, ‘Cubana Bar’, grátis antes das 11h. Servem Sagres, mas como disso há muito em Portugal, aposta num Mojito, para melhor apreciares a música ao vivo e toda a decoração em amarelos. Se foste ver o último filme da Anne Hathaway, ‘One Day’, lembrar-te-às deste bar. Era lá que ela trabalhava antes de se fazer ao mundo. Agora pega nas botas e faz-te a Londres!

Para sugestão de segundo dia, põe todos os teus sentidos à prova nos mercados!

Deixo-vos aqui três hipóteses para uma boa fatia (senão inteira) do dia.

Fatias e mercados = Borough Market.

Borough Market é delicioso, literalmente.

Apetece levar tudo para casa ou mesmo no bolso, passar a viver em Londres só para fazer as compras de supermercado lá.

Às Quintas, Sextas e Sábados – aconselho a começarem o dia lá.

Brixton Market

Brixton Market leva-te a outra realidade, um mercado das Caraíbas no meio de Londres com mais de 300 stalls, vende peixe, vegetais e flores todos os dias da semanas. Se visitares tens de fazer duas coisas:

1. Comer uma pizza no Franco Manco’s – deliciosas!

2. Pergunta aos comerciantes para te mostrarem a sua própria moeda, sim, os comerciantes de Brixton criaram um sistema monetário próprio. E bem actual!

Brick Lane

Brick Lane funciona por norma, aos Domingos.

Concentrado principalmente numa rua e nos arredores dela, é o mercado mais ‘in’ de Londres, mas é realmente daquelas coisas ‘in’ que vale a pena visitar. O mercado, entre as lojas envolventes, e rodeado de restaurantes  divide-se em dois principais: Oldspitafields Market e o Sunday Market.

Se ficares até a noite, recomeça a exploração e perde-te novamente nas ruas, saltando de bar em bar, de pint na mão.

A noite aqui é sempre imprevisível mas geralmente começa no bar 1001, perto da famosa editora/loja  Rough Trade (a visitar!) isto tudo na Curtain Road.

A noite prolonga-se lá para cima para Shoreditch onde tens várias hipóteses, entre Jaguar Shoes, Kick Bar ou Cargo.

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