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Jaisalmer, barbas longas e pés descalços


Encontra-se casa e família, cama e mesa postas. Protegidos num forte de laços empedrados e ternos. Ainda que nos cobrem pelo reconforto e pelo alento, dá-se valor a esta felicidade que desaperta o cinto, abre a carteira e nos enriquece a alma.

Fala-se indiano a velocidades diferentes, fala-se alto, fala-se até longe. Há homens sentados e motas sempre a arrancar. As paredes são pintadas com saris, tapeçarias, calças à Ali Baba, cadernos de pele, máscaras e estatuetas sagradas, sarrabiscadas de tabaco de mascar, calendários, cartões de memória, rolos de papel higiénico, garrafas de coca-cola e miudezas várias.

Aqui os dias estendem-se, arrastam-se, demoram. O calor abafa e pesa no peito. O pó entra-nos pelo nariz, pela boca, pelos olhos e começamos a fazer parte desta terra. Bebem-se longas King Fisher entre pratos que nos deixam rubros, de testa molhada e lágrimas nos olhos. Nunca a comida indiana nos soube tão bem.

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Carne fresca em Nova Delhi

Do aeroporto à estação de metro de New Delhi estranha-se o calor húmido e as poucas dúzias de indianos que neste extremo da cidade mexem. Tudo é inesperadamente normal, quase desapontante, mas é a partir “deli” que começa o choque.

Saímos do metro e batemos com a cara na estação de comboios de New Delhi. Uma porrada de gente, filas indianas que nunca mais acabavam daqueles que julgávamos serem os “famosos” “intocáveis”. Na verdade só eram indianos comuns à espera de embarcar em comboios apinhados. E porque o alerta era vermelho e a segurança apertada, as filas compridas eram para ser cumpridas, à risca. Rondavam as lines autênticos cães de guarda de chibata em riste e ai de quem fugisse da lei e da ordem. Nem uma foto tirámos.

Depois embatemos com o medo – o medo do sistema. Não saber se as coisas podem realmente acontecer. Não saber em quem confiar. Ditos, não ditos e desditos num clima de ar rarefeito e os sentidos todos baralhados. Há demasiada informação para absorver. Barulho, ruído, o som e a fúria. Tudo choca, tudo nos choca como se estivéssemos numa pista endiabrada de carrinhos de choque. E ficámos perdidos num trânsito sem horas, de buzinas sem lei. Verdadeiras baratas tontas enlatadas, num rickshaw cheio de estrica, naquele ataque de nervos de cidade.

E por entre encontrões, empurrões, pisadelas e escarradelas, chegámos à velha estação de Delhi. Um tiro pela culatra de estação. Só queríamos sombra, assentos e paz de alma. Mas apanhámos com um ror de indianos, mais as trouxas dos indianos, mais a família toda dos indianos, mais a preguiça toda dos indianos, mais a lixeira toda dos indianos, mais as moscas, os mosquitos e os besouros indianos. Acabámos por nos remediar num encosto à sombra de uma venda de batatas fritas e bolachas de manteiga. Amarelos e desidratados éramos alvos fáceis para os olhares curiosos que nos rondavam como se fôssemos carne fresca, acabadinha de chegar.



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