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A preparar as férias.

A Louis Vuitton preparou um site bem arrumadinho cheio de dicas para quem fazer a mala é um grande saco.  Temos que reconhecer que uma mala Louis Vuitton não é para a nossa bolsa, mas o truque do rolinho e dos colarinhos…cabe.

E já que estamos numa de preparar as férias, andávamo-nos a esquecer de falar de um dos sites que mais jeito nos tem dado. Chama-se Don’t Forget your tooth brush e é o mais valioso auxiliar de memória para quem vai de viagem. Escolhe-se o destino, o tipo de férias que se vai ter e fica-se logo com uma lista que nunca mais acaba de afazeres em countdown até ao grande dia da partida.

 

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De Warszawa com amor – II Parte

6.Como Varsóvia não é uma cidade comum o itinerário que propomos para a visitante, para dois dias apenas, também não será comum.

Assim, qualquer visita deverá começar com um mergulho na nova mentalidade cosmopolita da cidade com um magnífico pequeno-almoço no Bistro Charlotte na Plac Zbawiciela. Chegue cedo, escolha uma mesa na esplanada e demore-se na contemplação pois, como dizia a nossa Sophia, “Viajar é olhar”. Se já não são horas para o pequeno-almoço também não faz mal, sente-se e peça um vinho que ajuda sempre à contemplação ou uma reflexão mais profunda sobre as consequências para a Europa da queda do Muro de Berlim.

Com o estômago reconfortado, dirija-se à ulica (“rua”, em Polaco – pronuncia-se algo como “ulitsa”) Mokotowska e percorra-a até à Plac Trzech Krzyży (Three Crosses Square). A Ul. Mokotowska e arredores representam a sofisticação das novas classes sociais ascendentes na Polónia, com as suas lojas de roupa e acessórios, nacionais e estrangeiras. Da Plac Trzech Krzyży dirija-se ao Rondo Charles de Gaulle onde, mesmo por trás da estátua do General francês que dá o nome à praça, encontra a antiga sede do Partido Comunista polaco que já referimos. À direita, tem uma das pontes que o poderá levar a Praga, o bairro operário outrora degradado conhecido como o “triângulo das Bermudas” pois sabia que entrava mas não tinha a certeza se sairia. Hoje em dia, esta imagem já não corresponde à realidade e vale bem a pena uma visita, em especial às antigas fábricas abandonadas que foram recuperadas para se transformarem em polos criativos à maneira da lisboeta “LX Factory”. Em especial, visite a Soho Factory que, desde Maio alberga o Museu do Neon, com uma pequena colecção dos neons que preenchiam a paisagem urbana da Polónia comunista. À sua esquerda, tem a Aleje (Avenida) Jerozolimskie que o levará à Ul. Marszalkowska, a principal rua comercial de Varsóvia, e outrora talvez a mais elegante, onde poderá visitar e avistar mais de perto o Palácio da Cultura. Não tome nenhum destes caminhos e siga, por enquanto, em frente, em direcção à Cidade Velha, passando pela Nowi Swiat, a rua mais orgulhosamente frequentada pelos habitantes de Varsóvia. Edifícios, estátuas, monumentos, igrejas, a Universidade, e lojas, muitas lojas.

De velho, o centro antigo de Varsóvia não tem nada, como já dissemos, pois foi totalmente reconstruído depois da 2.ª GG. A empreitada foi baseada nos arquivos existentes sobre o que ali existia, uma fotocópia tardia sem original, o que dá um certo ar de Disneylândia à coisa. Mas tem o seu charme e vale a visita. Se apetecer um Palácio-Museu, assim, logo no arranque, visite o Royal Castle (Zamek Królewski). Se a fome apertar, pare no Gospoda Kwiaty Polskie (Wąski Dunaj 4/6/8), um salão pequeno com boa comida polaca, ou o Piwna Kompania (Podwale 25), uma espécie de „american dinner“ polaco, folclórico, comida razoável, mas preços honestos. Mas o que recomendamos mesmo é que saia da Stare Miasto em direcção de novo à Nowy Swiat. Pare para um café (no Café ou no Bar) do Hotel Bristol e admire o seu interior. Ou, se a sede for outra, mesmo em frente, no Przekąski Zakąski, quase em frente, para umas herrings, com vodka, ou uma salsicha cozida,  com cerveja. Saíndo do Przekąski Zakąski vire à esquerda em direcção à praça do herói desconhecido e percorra o parque adjacente até chegar à Ul. Marszalkowska, onde deverá virar à esquerda para, então, como prometido, tomar o pulso à monumentalidade do Palácio da Cultura ou, se preferir, subir até ao ultimo andar e apreciar a vista, também ela monumental, sobre Varsóvia.

Ainda na Marszalkowska, em frente ao Palácio, encontra uns antigos Grandes Armazéns comunistas, hoje integralmente recuperados, embora mantendo a arquitectura original, e transformados num moderno centro comercial. Como curiosidade, ao lado destes armazéns, tente encontrar o “Chapéu do General”, uma estrutura circular, ou melhor, uma rotunda, que é uma pérola da arquitectura comunista que vai resistindo à passagem do tempo e aos cartazes de publicidade. Continue na Marszalkowska em direcção à Plac Konstytucji (Praça da Constituição) e vá apreciando as formas da arquitectura comunista. Se já estiver na hora do aperitivo faça um pequeno desvio até à Ul. Poznánska número 12 (vire na Ul. Hoza ou na Ul. Wilcza) e delicie-se com um Humus ou uns Falafel no Café Bar Beirut (http://www.beirut.com.pl/). De volta à Plac Konstytucji siga a rua até à Plac Zbawiciela, onde iniciou o passeio, e deixe-se deslumbrar pelas estátuas dos prédios, dos dois dois lados, que representam as classes sociais que eram valorizadas pelo comunismo polaco.

De volta à Plac Zbawiciela pode regressar ao Charlotte, para uma taça de champanhe e apreciar a evolução dos frequentadores, ou então, caso seja já hora de jantar, apanhar um taxi para o U Kucharzy (http://www.gessler.pl/newruk5.htm), um dos restaurantes do império da família Gessler. Um restaurante imperdível, quer pelo cenário – a sala de refeições era a cozinha de um grande hotel -, quer pela comida – arrisque o bife tártaro que não se arrependerá.

Depois de jantar, ou antes, desça até ao Warzawa Powisle, a coisa mais próxima que há em Varsóvia do Adamastor há 10 anos (só que sem a vista), ideal para uma cerveja, claro, ou duas. Para dançar, a 10 minutos a pé, não perca o Syreni Spiew , uma discoteca em que uma banda ao vivo faz as vezes do dj, à moda antiga. Para algo mais „moderno“ rume ao Powiekszenie, na Nowy Swiat, número 27 (depois de entrar no interior do prédio ande 100 metros e fica na sua esquerda).

Para o segundo dia, a nossa proposta é mais localizada e obrigará algumas deslocações, de taxi, de autocarro ou, de preferência, de bicicleta (Varsóvia, como quase toda a Polónia, é bastante plana). Comece o dia (Sábado ou Domingo, até às duas da tarde) num mercado (Bazar) a céu aberto num antigo subúrbio de Varsóvia, o Kolo, mas conhecido como Bazar na Kole, na ul. Obozowa. Como qualquer flea market, aqui encontrará de tudo, desde memorabilia da 2.ª GG a máquinas fotográficas do periodo comunista.  Para almoçar, muito próximo do mercado, encontra o Spokojna („calma“ ), no número 15 da rua de mesmo nome, um restaurante bem tranquilo com esplanada localizado num edifício do século XVIII pertencente à Academia de Belas Artes, ou a Mielzynski.

Como uma visita a qualquer cidade nunca estará completa sem uma passagem pelo mercado municipal, antes ou depois do Bazar na Kole, de preferência ao Sábado, nunca ao Domingo, passe pelo Hala Mirowska, na plac Mirowski 1, um mercado composto por dois edifícios do início do século XIX, quase integralmente destruídos durante o uprising de Varsóvia e que conseguiram sobreviver, por milagre, à limpeza ideológica do partido comunista.

Um mergulho literal na Polónia real de que não se arrependerá e que apenas estará completo quando almoçar num „milk bar“, espécie de cantinas do povo da época comunista, com preços subsidiados, que é a nossa próxima sugestão. Os milk bars estão neste momento ameaçados de extinção uma vez que o Governo polaco pretende acabar com os subsídios a estes estabelecimentos. Aqui os preços são realmente muito baratos, pode almoçar por um euro, mas existe uma dificuldade que acresce ao preço uma vez que os menus estão todos em polaco e as grandes filas para pagar na caixa não deixam muita tranquilidade para tentar decifrar a ementa. Para que não seja uma experiência tão radical, propomos o Milk Bar Bambino, na ul. Hoża 19, mais elegante, mas não menos “popular”.

Um parênteses sobre os comes e bebes em Varsóvia: os vinhos são, em geral, caros. Dedique-se à descoberta da (boa) vodka. Peixe vem sem cabeça, sem espinhas, sem escamas e sem cara de peixe (tal com conhecemos em Portugal). Aposte nas carnes. Na dúvida, peça uns “pierogi” – um interpretação polaca do ravioli, que, como tudo que é “básico”, é muito bom se for bem feito. Informação útil: praticamente todos os restaurantes estão abertos o dia todo, ou seja, não fecham entre o almoço e o jantar (e muitos estão mesmo abertos desde o pequeno-almoço), o que dá muito jeito; efeito colateral: a maioria fecha relativamente cedo.

Em seguida, rume à Ul. Złota 8 em direcção à melhor loja de discos de Varsóvia, a Hey Joe, um espaço particular onde poderá encontrar discos em vinil, em segunda mão, da melhor música polaca, do jazz ao hip-hop passando pelo blues, funk e rock psicadélico. Deixamos como sugestão que compre o disco Karate (1972), dos Breakout, a primeira banda de Tadeusz Nalepa, um compositor e multi-instrumentista polaco que vai gostar de conhecer.

Muito perto da Hey Joe, e se lhe apetecer um museu e um pouco de arte contemporânea polaca, poderá visitar o Museu de Arte Moderna, ou então, dirija-se ao Centro de Arte Contemporânea, no castelo Ujazdowski em pleno parque Łazienke (Varsóvia é a cidade mais verde da Polonia e o Łazienke, provavelmente o parque mais emblemático). Aqui poderá visitar as exposições temporárias ou ir a um dos cinemas de Varsóvia com a programação mais interessante, o Kino Lab. No lado oposto à entrada do museu, sente-se na esplanada do restaurante e aprecie a vista do parque ou então desça a escadaria e vire à esquerda para a verdadeira surpresa: um museu improvisado do graffiti, mesmo em baixo do viaduto. Varsóvia é conhecida pelos graffitis, que vai encontrando um pouco por toda a cidade, mas em nenhum lugar encontrará uma concentração de tal qualidade, com os graffitis a ocuparem a totalidade das colunas do viaduto.

Neste momento já está perto do rio Vístula. Dissemos no início que a cidade sempre viveu de costas voltadas para o rio mas nos últimos anos a postura tem vindo a alterar-se. Símbolo desta nova abordagem é o Centro Copérnico, um polo de divulgação científica que abriu portas em 2010. Se estiver bom tempo, sugerimos uma visita ao Cud nad Wisłą ou “Milagre no Vístula”, um bar sasonal que desde há dois anos tem contribuído para esta renovação da relação dos locais com o seu rio. Com uma programação musical intensa é um sítio ideal para um entardecer solarengo embalado por um vinho branco.

Para jantar, sugerimos que atravesse o rio e escolha ums dos inúmeros restaurantes que pululam na Ul. Francuska no bairro Saska Kępa, em Praga Południe, um dos bairros mais popiulares das classes médias de Varsóvia nos anos 20 e 30 antes da Guerra e que recupera agora a sua popularidade entres as classes mais artísticas. Depois de jantar poderá ainda ir ao Sen Pszczoły, um bar/discoteca com concertos, regressar ao outro lado do rio para o 1500 m2, um antigo armazém com literalmente 1500 metros quadrados ou, se estiver bom tempo, para o Plac Zabaw, ao lado do viaduto dos graffitis, a versão de Verão do Powiekszenie http://www.planbe.pl/miejsce.php que sugerimos para a primeira noite.

Et voilà. Muitas coisas ficaram de fora, como o Museu Chopin , na Ul. Tamka, o Museu do Poster , em Wilanow, ou outros bares e restaurantes, mas viver é escolher e estamos seguros de que, mesmo se apenas fizer um terço daquilo que propomos, sairá de Varsóvia com uma percepção diferente daquela que tinha quando chegou, e com vontade de regressar.

Uma última coisa: não conhecemos muitos hotéis mas os nossos amigos polacos recomendam os seguintes B&B: Oki doki  ou o Miedzy Nami.

Um hotel charmoso e bem localizado é o Rialto.

Ou então poderá sempre recorrer ao AIRBNB – este apartamento fica muito bem localizado.

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De Warszawa com amor – I Parte

Em tempos de Europeu, pedimos ao Rui e à Fábia para marcarem mais uns pontos e nos guiarem por Varsóvia. Mas o percurso é longo e não se faz todo em passadas largas, nem de uma vez só. Este é um guia que atravessa a cidade por fora e por dentro. E nós recebemo-lo com muito amor.

1.Varsóvia é muita coisa, excepto óbvia – talvez, precisamente, por ser tantas cidades numa só cidade. Entre o passado e o presente, dos canteiros de neve suja aos canteiros de amores-perfeitos, fica a promessa da “próxima Berlim” (com todo o respeito ao passado que a afirmação exige) para quem procura uma “nova” capital europeia a descobrir.

Uma cidade com um punhado de séculos, onde a grande maioria dos prédios tem apenas um punhado de décadas. Que fica a 300km do mar, mas cujo símbolo é uma sereia. Que abriga um povo fechado, pelo menos até aos primeiros shots de vodka. Onde se pode virar à esquerda nos grandes cruzamentos, mas arrisca-se a carta de condução (de automóveis) se resolver voltar para casa a pedalar uma bicicleta depois dos tais shots. Aqui, os parques roubam a cena ao rio, coisa estranha para nós Portugueses e, especialmente, Lisboetas e Tripeiros. Verde no Verão, dourada no Outono, cinzenta no inverno e esperançosa na Primavera. Não é imperial, não é comunista, não é democrática. É tudo isso, e muito antes pelo contrário. Onde todas os lugares mais surpreendentes vão, provavelmente, estar escondidos atrás de uma placa cheia de consoantes e carente em vogais. E por falar em língua, do alfabeto Polaco nem sequer consta a letra “V”. Aqui diz-se Warszawa, embora esta fotografia demonstre o contrario. Contradições – ou, no mínimo, contrastes – portanto.

2.Tal como as línguas, as cidades têm personalidade. Varsóvia tem a personalidade da língua polaca: fechada e difícil de aprender (a terceira mais difícil, segundo os entendidos), no início, livre e fluida, depois, ou pelo menos assim esperamos. Em relação à língua, não à cidade, entenda-se. Cheia de regras, mas também de casos e excepções. A língua. E a cidade.

Quem chega desprevenido tem a sensação de ter entrado num abrigo atómico, claustrofóbico, onde todos desconfiam de todos e o trato é rarefeito. A cidade demora a dar-se a conhecer, estás nas esquinas, no meios dos prédios e nem todos podem entrar. Várias visitas e experiências depois e o que inicialmente parecia mau feitio é apenas uma personalidade forte. Uma cidade que foi ocupada, destruída duas vezes e de novo ocupada, não pode correr riscos. Por isso, nada de amizades de conveniência ou de circunstância, apenas amizades verdadeiras, das que resistem aos percalços da vida e ressurgem sempre com mais força. Queremos ser amigos desta cidade.

3.E, se a ideia é amizade, a primeira dica prática é: evite o Inverno. As estações do ano mudam radicalmente, assim como a paisagem urbana e o quotidiano das pessoas – categoria que inclui os turistas. Temperaturas que chegam aos 30 graus negativos não propiciam, por assim dizer, os novos encontros. Aposte antes na Primavera, Verão e Outono. Nota: se, mesmo assim, optar pelo Inverno, lembre-se que todos os lugares fechados são bastante quentes e secos, ou seja, vale a pena trazer algo digno de público por baixo da camisola de lã.

Não proliferam, mas há uma série de guias “clássicos” com edições de Varsóvia, cheios de sugestões de roteiros também “clássicos”. O mais complicado por aqui é descobrir o que não vem nos guias escritos em Inglês, nem nas revistinhas gratuitas dos hotéis. Pesquisas na Internet são, no geral, bastante frustrantes – a menos que domine o Polaco – para quem está à procura de alguma autenticidade. De qualquer forma um pouco de “mainstream” não faz mal a ninguém e alguns dos passeios mais evidentes também valem à pena.

4.Uma semana antes do Euro, a cidade perde-se em pormenores de última hora. Os mais críticos dirão que a cidade não está preparada e que muito ficou por fazer. A verdade é que os “estaleiros” estão instalados no centro de Varsóvia e o metro não irá estar pronto para o jogo inaugural, dia 8 de Junho. Segundo sabemos, também não era esse o propósito. Desde 1989, a Polónia foi o único país Europeu que nunca entrou em recessão e que apresenta um crescimento consecutivo. Desde 2008, a economia do país cresceu quase 15%, quando a media europeia, para o mesmo periodo, foi de -0.5%.

Entretanto, a Polónia floresce e a sua capital, como não poderia deixar de ser, é o local onde os resultados deste crescimento são mais evidentes. Estima-se que existam hoje 50 mil milionários no país e cerca de 700 mil pessoas com rendimentos mensais superiores a 4500 euros. Este números têm, evidentemente, um reflexo na forma de vida deste país que abandonou o bloco comunista há pouco mais de vinte anos. Não é por acaso que, onde antes era a sede principal do partido comunista, e se poderia ler “A amizade polaco-soviética serve a causa do socialismo e da paz”, hoje é a sede da bolsa de valores polaca e um edifício que representa o oposto dos valores da propaganda da “República Popular da Polónia”. Mas a ironia fica mais saborosa: até um stand da Ferrari encontrou o seu posto no edifício.

Esta vontade do país demonstrar aquilo que já não é tão ostensivo que o visitante atento não demorará muito em descobri-lo. Varsóvia vive a sua fase estética, o que é ainda mais visível na Primavera e no Verão, com as ruas a serem literalmente invadidas por jovens e não menos jovens orgulhosos do seu outfit escolhido criteriosamente para impressionar. Se durante os anos do comunismo a normalização era incentivada ou mesmo imposta, de acordo com os predicados do Realismo Socialista, da roupa à comida, passando pelas própria habitações, hoje poderia dizer-se que a extravagância é a regra.

Integralmente reconstruída depois da 2.ª GG, a arquitectura da cidade (nova) impressiona por corresponder em grande parte a um planeamento ideológico, do Realismo Socialista, pelo menos até a década de 70 do século passado, segundo o qual a arquitectura  deveria também reflectir a ideologia professada pelo partido. O homem comunista tinha uma dieta, um vestuário e também uma habitação que eram definidas directamente em Moscovo e transmitidas à célula do partido em Varsóvia. Esta arquitectura, que transforma Varsóvia numa cidade, diríamos, “soviética”, mereceria um guia autónomo e porventura uma visita especializada, tal é a riqueza histórica dos diferentes conglomerados arquitectónicos que compõem o conjunto edificado durante o período comunista, que impressiona pela sua dimensão no exterior e pelos seus liliputianos interiores. Sim, o homem comunista deveria viver em tipologias pré-definidas – e cada uma não deveria ultrapassar os 35m2 por família.

Tudo isso para voltar ao nosso ponto de partida: Varsóvia não é uma capital Européia óbvia e, na nossa opinião, fica muito mais interessante se for observada e compreendida a partir de um ponto de vista, ao invés de julgada com preconceitos.

5.Varsóvia não tem centro e este, a existir, não está localizado na Cidade Velha (Stare Miasto), devotada à condição de museu a céu aberto pela maioria dos seus habitantes. Pode viver-se em Varsóvia durante uma vida sem nunca visitar a cidade velha – a não ser quando requisitado por amigos estrangeiros.

Esta impossibilidade de centro deve-se, em grande medida, ao edifício emblemático da cidade, o Palácio da Cultura, durante muito tempo o segundo maior arranha-céus da Europa, visível em qualquer ponto da cidade, e que terraplanou o equivalente a dois estádios de futebol onde antes se localizava parte do bairro judeu, destruindo inclusive alguns, dos poucos, edifícios que sobreviveram à 2.ª GG. O Palácio da Cultura foi um presente da União Soviética, cuja arquitectura foi supervisionada pelo próprio Estaline e que é ou era conhecido pelos Varsovianos simplesmente como Pekin (Pequim), uma extrapolação metafórica do acrónimo do edifício (PKIN – Pałac Kultury i Nauki w Warszawie).

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Todos os cabelos vão dar a Londres

(A Rute foi passar uma semana a Londres e foi o que bastou para ficar com a cidade pela ponta dos cabelos. E que cabelos!)

Londres já não é novidade, pelo que qualquer artigo sobre a cidade da ginger beer soa a redundância. A não ser que juntemos uma crónica de Pasolini lida no avião a uma conversa de autocarro com uma British ma’am de 84 anos. Eis Londres ao acaso.

“A primeira vez que vi os cabeludos foi em Praga. No ‘hall’ do hotel onde estava hospedado, entraram dois jovens estranhos, cujos cabelos lhes chegavam aos ombros. (…) Nenhum dos dois disse palavra. (…) Aquilo que substituía a tradicional linguagem verbal e a tornava supérflua (…) era a linguagem dos cabelos.” Assim começava Pier Paolo Pasolini, em 1973, a ver nos cortes, formas e tons de cabelo pontos de manifestação social, através de uma “violência não violenta”.

O que mostram os londrinos no cabelo? Que ninguém os pára, que ninguém lhes trava a liberdade, que o mundo pode ser da forma e da cor que eles quiserem.

1 – Chinatown e os prazeres pontiagudos

“Models.” Lê-se em várias portas da microlândia chinesa em Londres. Pelas 2h da manhã, subimos as escadas íngremes, batemos na porta branca e uma mulher de calças pergunta o que desejamos. “Modelos”, claro! “No… We don’t have that kind of models… Here, is just for sex.” Os ingleses são muito “straight”. Não há cá cubos de gelo. Se queremos sexo, muito bem. Agora, modelos para fotografar, só numa agência.

Chinatown é isto, mas também são cozinhas que cheiram bem, acordes de néons, vitrinas kitsch, cabeleireiros, lojas de produtos naturais, massagens a partir de três libras e mulheres orientais de fazer cair o queixo. Vale a pena viver o bairro a diferentes horas do dia e da noite.

2 – Whitechapel: do cabelo ao véu

A viagem até Whitechapel deve fazer-se no primeiro andar de um autocarro vermelho, para ver como Londres se vai “camaleando”. Do bairro português, saltam letreiros de bacalhau e Benfica; das ruas negras, perucas e unhas falsas. À chegada, a mesquita de East London impõe-se, ladeada pelas lojas de doces árabes, cartões de chamadas telefónicas, túnicas e bugigangas. Os penteados são lenços e burqas.

À segunda-feira, um homem cujo nome não sabemos pronunciar nem escrever deixa “os ocidentais” darem uma voltinha pela maior mesquita londrina. Basta pedir o número de telemóvel no guichet do Centro Islâmico, mesmo ao lado, e marcar. Fomos lá a um domingo, mas, à socapa, ainda deu para ver as salas (a dos homens e a das mulheres) forradas a alcatifa bordeaux. E ainda saímos com o Corão debaixo do braço, oferecido pelo senhor simpático que aspirava a dita alcatifa. O bom do domingo é que, mesmo ao lado, perto da saída da estação de Shoreditch, há um mercado de quinquilharia, tecnologia roubada e cerveja barata.

3 – Brixton cheira a Hendrix

Bons pedaços como Bowie, van Gogh, Hendrix ou mesmo Damien Hirst viveram em Brixton. E não o fizeram, com toda a certeza, só porque os flats eram mais baratos (muitos são daqueles com terraços que servem de armazém de ilegalidades e parecem dar para saltar de uns para os outros, entre o arame farpado).

Mal saímos do “tube”, cheira a marijuana. Brixton é uma tisana pegada, pelo que ficamos ourados só de deambular no primeiro quarteirão. A Jamaica instalou-se aqui nos anos 1950 e, agora, os talhos do mercado (e que belo mercado!) passam reggae, as paredes respiram cores garridas e as tranças roliças enchem os olhos dos visitantes.

Para comprar vinis e assistir a concertos, Brixton is “the place”. Aconselhamos vivamente o Hootananny, no 95 da Effra Road, que aos domingos tem concertos gratuitos onde rola muita fusão: afrobeat, jazz, reggae, dub, blues, música e música tribal.

4 – A rua é no leste

É em East London – Shoreditch, Bricklane e Hackney – que a street art fervilha. Toda a cultura de rua – e cabelos debaixo do boné – tem pujança e contexto suficientes para se rasgar nas paredes. Como prova o senhor Banksy, que tem deixado muitas marcas por estas redondezas.

Na Bricklane, há galerias e lojas de roupa em segunda mão que fazem o gosto ao olho. Há cafés a vibrar de style e pastelarias com bolos na casa dos cêntimos. Numa rua transversal, aparece-nos a Rough Trade, bom lugar para perder a cabeça e sacar vinis “upa-upa” a preços para bolsos tugas.

Em Dalston, o Dalston Eastern Curve Garden (www.dalstongarden.com) oferece uma esplanada junto a alfaces, numa antiga estação de comboios abandonada. É um espaço de cultivo criado no âmbito da Design for London, para colmatar a falta de verde sentida pelos moradores. Lá dentro, também funcionam os V22 Studios, atelier de artistas onde é possível ver o work in progress acontecer.

5 – Portobello Market e a apple pie por comer

E para não dizerem que só andamos na “sublondon” e não damos margem à cidade para ser bonitinha e oferecer montras aperaltadas, mini-saias e scones, é claro que recomendamos um passeio junto ao Tamisa, um “vagueanço” pela Oxford Street e um olhar prolongado nos prédios altos e envidraçados (sem cortinas) de Barbican.

Também vale a pena pontuar Notting Hill – quanto mais não seja pelo mercado de Portobello, que nos coloca a boca nos olhos a cada passo. Ali, a couve-flor é uma flor, os frutos silvestres são lábios de boneca e os bolos levam recheios de descuidar as bochechas. Mais: há casacos de inverno muito “poche” (a palavra do momento em Londres) por menos de dez euros.

Nas imediações da Portobello Road, existe um café com mesas brancas de plástico e um menu variadíssimo de tartes, cafés e chás a bom preço. Encantadoramente, não é um pub, não é um bistrôt, não é uma casa italiana: é um simples tasco inglês! Descubram a apple pie caseirinha e depois tragam a morada, que nós só não nos esquecemos de trincar a maçã como de apontar o endereço. (Em qualquer viagem, é sempre conveniente deixar algo por fazer, como pretexto para voltar.)

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Ao de leve por Genève

Apesar dos voos baratos e do instantinho que demora, Genebra continua a afugentar com os seus ares de monstro financeiro, cheia de  convenções e muros altos, onde a moeda e a cor da nota acertam o passo. Mas ninguém disse que o monstro era feio, nem que não apreciava umas festinhas ligeiras de vez em quando, por pouco tempo, não vá o bicho acordar e caír-nos em cima. Fica por isso um guia leve, de um fim-de-semana ao de leve, por Genève, io-de-lev, io-de-lev, io-de-lev, i-ô.

Vendredi

 10h00 – Carrouge

Uma espécie de bairro italiano bem no centro de Genebra. Cartier castiço e pitoresco com lojas e cafés simpáticos em cada esquina. A famosa e bonitinha  chocolataria Philippe Pascoet também fica para aquelas bandas.

12h00 – Cathedral de Saint-Pierre

Catedral protestante com nome de São Pedro. Calvino esteve por lá e deixou um púlpito muito pouco católico. Uma catedral neo-clássica que faz lembrar muitas Sés portuguesas. As vielas e ruelas que a circundam estão cheia de referências a Calvino e carregadas de cafés, restaurantes e lojas castiças.

14h00 – Place du Bour-de-Four

Mesmo no coração da cidade velha está a Place du Bourg-de-Four, local de encontros desde o século XVI. Hoje está rodeada por cafés (La Clémence é uma verdadeira instituição genevoise), gelatarias carismáticas (Angoletta – bons gelados italianos), loja de azeitonas e seus derivados (Oliver&Co) e um restaurante com saladas tailandesas e “frango de churrasco” (Chez Ma Cuisine). Aproveitem para almoçar.

15h00 – Rue du Rhône

Aqui podem encontrar as grifes mais cobiçadas do mundo como Cartier, Bvlgari, Gubelin, Patek Phillippe, Armani, Chanel, Dior, Givenchy, Gucci,Louis Vuitton, Joalherias, entre outras.

 16h00 Musée d’art et d’histoire

Com escadarias longas e tetos altos este museu congrega uma muito simpática coleção artística que vai da Idade média ao Século XX com pintura italiana, germânica, francesa e suíça . Por lá podem encontrar Cézanne, Modigliani, Rodin entre muitos outros.

18h00 – Jardins Anglais

Um dos ícones de Genève está plantado aqui desde 1955 (Horloge Fleurie).

Com o Lac-Léman en face, vale a pena sentar à sombra de uma árvore a comer um gelado.

20h00 – Buvettes des Bains de Pâquis

Chegar cedo, reservar mesa, fazer fila e derreter-se com um fondue à beira lago. Vinte euros por pessoa para jantar fondue é um verdadeiro achado em Genebra.

22h00 – Paquis

Entre a estação central de Cornavin e o lago Léman, esta é uma das mais carismáticas zonas de Genève. Uma verdadeira red Light com restaurantes e bares chineses, japoneses, paquistaneses e portugueses. Imperdível.

00h00 – Philippine Assia

Bar de Karaoke no Paquis, onde se sai do ambiente suíço e se dá um saltinho até às Filipinas. Um verdadeiro hino à Ásia.

Samedi

10h00 – Le pain quotidien (Place du Cirque) para o petit déjeuner

Podemos encontrá-lo em todos os cantos do mundo, mas nunca fez tanto sentido como em Genebra. Dos poucos sítios com um preço simpático para trincar um croissant et boir um sumo de laranja.  (Os croissants aux almand são deliciosos)

11h00 Plainpalais

Marchés aux puces cheio de relíquias e quinquilharias (sábados e domingos) . E ainda uma série de pastelarias, restaurantes, cafés, bares e clubs (La SIP) fazem desta praça um dos pontos a visitar em Genebra.

14h00 MAMCO

Situado numa fábrica abandonada, este museu de arte contemporânea são 4 pisos de exposições itinerantes, pontuadas por uma série de neons assinados por Maurizio Nannucci.

16h00 – Les bains de paquis

Se for Verão, levar bikini e aproveitar para dar um mergulho nas águas transparentes do lago.

18h00 – Palácio das Nações

A sede da ONU na Europa. Cheguem pela Quai Wilson e pela Rue de Lausanne. É um bom passeio ao pé do lago.

19h00 – Les Schtrounfs

Três arquitetos (G.Berthoud, R. Frei, C. Hunziker) inspiraram-se na casa de Milá de Gaudi para criar este amontoado de apartamentos. Entra na banda desenhada!

22h00 – Ilôt 13

Fica entre a rua de Montbrillant e a rua das Gares e é um dos mais antigos squats suíços. Com muros grafitados e fachadas de madeira, é um óptimo local para se ir beber uma cerveja (das mais baratas que por lá se bebem) e ouvir boa música num ambiente de estudantes Erasmus e artistas com rastas no cabelo e calças a dar-a-dar.

Dimanche

10h00 – Hermance

E porque Domingo é dia de descanso,  10Km  a Este de Genève (Bus E) encontra-se  uma pequena vila medieval com castelos, ruelas,  um porto e uma pacata praia para umas espreguiçadelas valentes.

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