Demos nota positiva a Marvila

Andamos a correr as capelinhas a convite da Nota Positiva. Foi já há uma data de tempo que fomos até Marvila e que descobrimos que há um arsenal de possibilidades numa das maiores freguesias de Lisboa.

Marvila: um braço de prata entre artistas e bairristas

 Se Marvila fosse um bicho era um gato vadio cheio de manha, a esticar-se por ali ao sol a mudar de vidas. Já foi freguesia rural onde as quintas e as hortas guarneciam os mercados, e apesar de ainda persistirem por lá os palacetes e os casarões, agora a vida é outra. Também já foi ruído infernal, engrenagem, “ferro e fogo e força”, mas da vida furiosa e fabril ficou-lhe o traço bairrista e a fisionomia industrial das usinas, dos armazéns descarnados, dos carris e das rodas dentadas que vão da Rua do Açúcar ao Braço de Prata.

Fomos lá parar num Domingo à tarde de sol generoso. Enche a praceta do Poço do Bispo uma toada de trio popular, fugido das janelas do segundo andar do Clube Oriental de Lisboa. Mas já que o Domingo é à tarde e a praceta é pacata, segue-se o ribombo e vai-se a um pé de dança. Logo no hall de entrada, a escada corrida a tapete vermelho esbarra numa parede de azulejo onde se imortaliza a primeira formação da equipa de futebol da COL. No segundo andar já se vê o senhor da bilheteira das matinés a dar-nos baile: “as senhoras pagam 2 euros, os cavalheiros 3” e já temos o programa das festas dos Sábados e Domingos por aí em diante até terminar o mês. Mas o bailarico só começa às três e nós nem almoçadas estamos. No bar, a rapaziada de setentas e tal anos joga às cartas. Rondamos a sueca e chegamo-nos à janela com vista para a praceta e para a Fábrica Fonseca. Atrás do balcão, bifanas e petiscos. Damos duas de conversa, pergunta-se o habitual destas coisas e “vamos ali, já voltamos”.

Cá fora a conversa é outra. Falam-nos do pagode adormecido há mais de 15 anos – “na altura é que era, a gente divertia-se aqui até às tantas” – enche-se o peito a um dos octogenários cá da freguesia quando se convida a recuar uns bons anos atrás. E não é motivo para menos, carregava “14000 litros de vinho por dia”, trabalhava para todos os armazéns da redondeza – “o Caldeira, o Joaquim Alves, o Carvalhal, o Zé Luis Barreiro, o Abel Pereira da Fonseca, o Vinhas, o espanhol (Vitor Guedes), os Curtos”, mais os outros todos que nem chegámos a entender. “Aquilo era tudo vinho a martelo”, e verdade seja dita, o próprio do Abel Pereira da Fonseca, pouco antes de morrer parece que disse: “Enquanto o Tejo tiver água, nunca deve faltar vinho a Lisboa” (a fazer jus ao dito, acabámos de meter a expressão do Fonseca a martelo).

Mas o corridinho abrandou quando as fábricas e os armazéns começaram a deixar de dar cartas e o Sr. Esteves e seus comparsas tiveram que se dedicar às paciências. Esbatidas pelo seu próprio fumo, das fábricas resta pouco, os camiões e mercadorias que por lá passavam dão lugar a lugares vazios e a largas avenidas sem trânsito. O império do operariado que declinou, um porto de mercadorias sem mercadorias.

Mas há ainda fábricas de lâmpadas acesas e motores em ebulição numa produção dessincronizada e muito pouco autómata. Por lá não se produzem réplicas e o trabalho não se mede ao tonel. Maquinam-se ideias, carimbam-se fachadas a cunhos pessoais e consagra-se o vinho num toste animado de copo cheio. A antiga Fábrica de Projécteis de Artilharia, ressuscitada Fábrica do Braço de Prata, é uma das antenas que continua ligada e a enviar muita onda. Já das outras emitem-se ondas ultrassónicas – os “morceguinhos”, como lhes chama o Sr. Esteves da praceta, andam a dar tinta ao manifesto e os muros de Marvila nunca mais se calaram. Nós sintonizámos a rádio, aumentámos o volume e fomos pregar para outra freguesia.

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