De Warszawa com amor – II Parte

6.Como Varsóvia não é uma cidade comum o itinerário que propomos para a visitante, para dois dias apenas, também não será comum.

Assim, qualquer visita deverá começar com um mergulho na nova mentalidade cosmopolita da cidade com um magnífico pequeno-almoço no Bistro Charlotte na Plac Zbawiciela. Chegue cedo, escolha uma mesa na esplanada e demore-se na contemplação pois, como dizia a nossa Sophia, “Viajar é olhar”. Se já não são horas para o pequeno-almoço também não faz mal, sente-se e peça um vinho que ajuda sempre à contemplação ou uma reflexão mais profunda sobre as consequências para a Europa da queda do Muro de Berlim.

Com o estômago reconfortado, dirija-se à ulica (“rua”, em Polaco – pronuncia-se algo como “ulitsa”) Mokotowska e percorra-a até à Plac Trzech Krzyży (Three Crosses Square). A Ul. Mokotowska e arredores representam a sofisticação das novas classes sociais ascendentes na Polónia, com as suas lojas de roupa e acessórios, nacionais e estrangeiras. Da Plac Trzech Krzyży dirija-se ao Rondo Charles de Gaulle onde, mesmo por trás da estátua do General francês que dá o nome à praça, encontra a antiga sede do Partido Comunista polaco que já referimos. À direita, tem uma das pontes que o poderá levar a Praga, o bairro operário outrora degradado conhecido como o “triângulo das Bermudas” pois sabia que entrava mas não tinha a certeza se sairia. Hoje em dia, esta imagem já não corresponde à realidade e vale bem a pena uma visita, em especial às antigas fábricas abandonadas que foram recuperadas para se transformarem em polos criativos à maneira da lisboeta “LX Factory”. Em especial, visite a Soho Factory que, desde Maio alberga o Museu do Neon, com uma pequena colecção dos neons que preenchiam a paisagem urbana da Polónia comunista. À sua esquerda, tem a Aleje (Avenida) Jerozolimskie que o levará à Ul. Marszalkowska, a principal rua comercial de Varsóvia, e outrora talvez a mais elegante, onde poderá visitar e avistar mais de perto o Palácio da Cultura. Não tome nenhum destes caminhos e siga, por enquanto, em frente, em direcção à Cidade Velha, passando pela Nowi Swiat, a rua mais orgulhosamente frequentada pelos habitantes de Varsóvia. Edifícios, estátuas, monumentos, igrejas, a Universidade, e lojas, muitas lojas.

De velho, o centro antigo de Varsóvia não tem nada, como já dissemos, pois foi totalmente reconstruído depois da 2.ª GG. A empreitada foi baseada nos arquivos existentes sobre o que ali existia, uma fotocópia tardia sem original, o que dá um certo ar de Disneylândia à coisa. Mas tem o seu charme e vale a visita. Se apetecer um Palácio-Museu, assim, logo no arranque, visite o Royal Castle (Zamek Królewski). Se a fome apertar, pare no Gospoda Kwiaty Polskie (Wąski Dunaj 4/6/8), um salão pequeno com boa comida polaca, ou o Piwna Kompania (Podwale 25), uma espécie de „american dinner“ polaco, folclórico, comida razoável, mas preços honestos. Mas o que recomendamos mesmo é que saia da Stare Miasto em direcção de novo à Nowy Swiat. Pare para um café (no Café ou no Bar) do Hotel Bristol e admire o seu interior. Ou, se a sede for outra, mesmo em frente, no Przekąski Zakąski, quase em frente, para umas herrings, com vodka, ou uma salsicha cozida,  com cerveja. Saíndo do Przekąski Zakąski vire à esquerda em direcção à praça do herói desconhecido e percorra o parque adjacente até chegar à Ul. Marszalkowska, onde deverá virar à esquerda para, então, como prometido, tomar o pulso à monumentalidade do Palácio da Cultura ou, se preferir, subir até ao ultimo andar e apreciar a vista, também ela monumental, sobre Varsóvia.

Ainda na Marszalkowska, em frente ao Palácio, encontra uns antigos Grandes Armazéns comunistas, hoje integralmente recuperados, embora mantendo a arquitectura original, e transformados num moderno centro comercial. Como curiosidade, ao lado destes armazéns, tente encontrar o “Chapéu do General”, uma estrutura circular, ou melhor, uma rotunda, que é uma pérola da arquitectura comunista que vai resistindo à passagem do tempo e aos cartazes de publicidade. Continue na Marszalkowska em direcção à Plac Konstytucji (Praça da Constituição) e vá apreciando as formas da arquitectura comunista. Se já estiver na hora do aperitivo faça um pequeno desvio até à Ul. Poznánska número 12 (vire na Ul. Hoza ou na Ul. Wilcza) e delicie-se com um Humus ou uns Falafel no Café Bar Beirut (http://www.beirut.com.pl/). De volta à Plac Konstytucji siga a rua até à Plac Zbawiciela, onde iniciou o passeio, e deixe-se deslumbrar pelas estátuas dos prédios, dos dois dois lados, que representam as classes sociais que eram valorizadas pelo comunismo polaco.

De volta à Plac Zbawiciela pode regressar ao Charlotte, para uma taça de champanhe e apreciar a evolução dos frequentadores, ou então, caso seja já hora de jantar, apanhar um taxi para o U Kucharzy (http://www.gessler.pl/newruk5.htm), um dos restaurantes do império da família Gessler. Um restaurante imperdível, quer pelo cenário – a sala de refeições era a cozinha de um grande hotel -, quer pela comida – arrisque o bife tártaro que não se arrependerá.

Depois de jantar, ou antes, desça até ao Warzawa Powisle, a coisa mais próxima que há em Varsóvia do Adamastor há 10 anos (só que sem a vista), ideal para uma cerveja, claro, ou duas. Para dançar, a 10 minutos a pé, não perca o Syreni Spiew , uma discoteca em que uma banda ao vivo faz as vezes do dj, à moda antiga. Para algo mais „moderno“ rume ao Powiekszenie, na Nowy Swiat, número 27 (depois de entrar no interior do prédio ande 100 metros e fica na sua esquerda).

Para o segundo dia, a nossa proposta é mais localizada e obrigará algumas deslocações, de taxi, de autocarro ou, de preferência, de bicicleta (Varsóvia, como quase toda a Polónia, é bastante plana). Comece o dia (Sábado ou Domingo, até às duas da tarde) num mercado (Bazar) a céu aberto num antigo subúrbio de Varsóvia, o Kolo, mas conhecido como Bazar na Kole, na ul. Obozowa. Como qualquer flea market, aqui encontrará de tudo, desde memorabilia da 2.ª GG a máquinas fotográficas do periodo comunista.  Para almoçar, muito próximo do mercado, encontra o Spokojna („calma“ ), no número 15 da rua de mesmo nome, um restaurante bem tranquilo com esplanada localizado num edifício do século XVIII pertencente à Academia de Belas Artes, ou a Mielzynski.

Como uma visita a qualquer cidade nunca estará completa sem uma passagem pelo mercado municipal, antes ou depois do Bazar na Kole, de preferência ao Sábado, nunca ao Domingo, passe pelo Hala Mirowska, na plac Mirowski 1, um mercado composto por dois edifícios do início do século XIX, quase integralmente destruídos durante o uprising de Varsóvia e que conseguiram sobreviver, por milagre, à limpeza ideológica do partido comunista.

Um mergulho literal na Polónia real de que não se arrependerá e que apenas estará completo quando almoçar num „milk bar“, espécie de cantinas do povo da época comunista, com preços subsidiados, que é a nossa próxima sugestão. Os milk bars estão neste momento ameaçados de extinção uma vez que o Governo polaco pretende acabar com os subsídios a estes estabelecimentos. Aqui os preços são realmente muito baratos, pode almoçar por um euro, mas existe uma dificuldade que acresce ao preço uma vez que os menus estão todos em polaco e as grandes filas para pagar na caixa não deixam muita tranquilidade para tentar decifrar a ementa. Para que não seja uma experiência tão radical, propomos o Milk Bar Bambino, na ul. Hoża 19, mais elegante, mas não menos “popular”.

Um parênteses sobre os comes e bebes em Varsóvia: os vinhos são, em geral, caros. Dedique-se à descoberta da (boa) vodka. Peixe vem sem cabeça, sem espinhas, sem escamas e sem cara de peixe (tal com conhecemos em Portugal). Aposte nas carnes. Na dúvida, peça uns “pierogi” – um interpretação polaca do ravioli, que, como tudo que é “básico”, é muito bom se for bem feito. Informação útil: praticamente todos os restaurantes estão abertos o dia todo, ou seja, não fecham entre o almoço e o jantar (e muitos estão mesmo abertos desde o pequeno-almoço), o que dá muito jeito; efeito colateral: a maioria fecha relativamente cedo.

Em seguida, rume à Ul. Złota 8 em direcção à melhor loja de discos de Varsóvia, a Hey Joe, um espaço particular onde poderá encontrar discos em vinil, em segunda mão, da melhor música polaca, do jazz ao hip-hop passando pelo blues, funk e rock psicadélico. Deixamos como sugestão que compre o disco Karate (1972), dos Breakout, a primeira banda de Tadeusz Nalepa, um compositor e multi-instrumentista polaco que vai gostar de conhecer.

Muito perto da Hey Joe, e se lhe apetecer um museu e um pouco de arte contemporânea polaca, poderá visitar o Museu de Arte Moderna, ou então, dirija-se ao Centro de Arte Contemporânea, no castelo Ujazdowski em pleno parque Łazienke (Varsóvia é a cidade mais verde da Polonia e o Łazienke, provavelmente o parque mais emblemático). Aqui poderá visitar as exposições temporárias ou ir a um dos cinemas de Varsóvia com a programação mais interessante, o Kino Lab. No lado oposto à entrada do museu, sente-se na esplanada do restaurante e aprecie a vista do parque ou então desça a escadaria e vire à esquerda para a verdadeira surpresa: um museu improvisado do graffiti, mesmo em baixo do viaduto. Varsóvia é conhecida pelos graffitis, que vai encontrando um pouco por toda a cidade, mas em nenhum lugar encontrará uma concentração de tal qualidade, com os graffitis a ocuparem a totalidade das colunas do viaduto.

Neste momento já está perto do rio Vístula. Dissemos no início que a cidade sempre viveu de costas voltadas para o rio mas nos últimos anos a postura tem vindo a alterar-se. Símbolo desta nova abordagem é o Centro Copérnico, um polo de divulgação científica que abriu portas em 2010. Se estiver bom tempo, sugerimos uma visita ao Cud nad Wisłą ou “Milagre no Vístula”, um bar sasonal que desde há dois anos tem contribuído para esta renovação da relação dos locais com o seu rio. Com uma programação musical intensa é um sítio ideal para um entardecer solarengo embalado por um vinho branco.

Para jantar, sugerimos que atravesse o rio e escolha ums dos inúmeros restaurantes que pululam na Ul. Francuska no bairro Saska Kępa, em Praga Południe, um dos bairros mais popiulares das classes médias de Varsóvia nos anos 20 e 30 antes da Guerra e que recupera agora a sua popularidade entres as classes mais artísticas. Depois de jantar poderá ainda ir ao Sen Pszczoły, um bar/discoteca com concertos, regressar ao outro lado do rio para o 1500 m2, um antigo armazém com literalmente 1500 metros quadrados ou, se estiver bom tempo, para o Plac Zabaw, ao lado do viaduto dos graffitis, a versão de Verão do Powiekszenie http://www.planbe.pl/miejsce.php que sugerimos para a primeira noite.

Et voilà. Muitas coisas ficaram de fora, como o Museu Chopin , na Ul. Tamka, o Museu do Poster , em Wilanow, ou outros bares e restaurantes, mas viver é escolher e estamos seguros de que, mesmo se apenas fizer um terço daquilo que propomos, sairá de Varsóvia com uma percepção diferente daquela que tinha quando chegou, e com vontade de regressar.

Uma última coisa: não conhecemos muitos hotéis mas os nossos amigos polacos recomendam os seguintes B&B: Oki doki  ou o Miedzy Nami.

Um hotel charmoso e bem localizado é o Rialto.

Ou então poderá sempre recorrer ao AIRBNB – este apartamento fica muito bem localizado.

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2 thoughts on “De Warszawa com amor – II Parte

  1. Diogo diz:

    Grande roteiro. Tenho de voltar.

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