De Warszawa com amor – I Parte

Em tempos de Europeu, pedimos ao Rui e à Fábia para marcarem mais uns pontos e nos guiarem por Varsóvia. Mas o percurso é longo e não se faz todo em passadas largas, nem de uma vez só. Este é um guia que atravessa a cidade por fora e por dentro. E nós recebemo-lo com muito amor.

1.Varsóvia é muita coisa, excepto óbvia – talvez, precisamente, por ser tantas cidades numa só cidade. Entre o passado e o presente, dos canteiros de neve suja aos canteiros de amores-perfeitos, fica a promessa da “próxima Berlim” (com todo o respeito ao passado que a afirmação exige) para quem procura uma “nova” capital europeia a descobrir.

Uma cidade com um punhado de séculos, onde a grande maioria dos prédios tem apenas um punhado de décadas. Que fica a 300km do mar, mas cujo símbolo é uma sereia. Que abriga um povo fechado, pelo menos até aos primeiros shots de vodka. Onde se pode virar à esquerda nos grandes cruzamentos, mas arrisca-se a carta de condução (de automóveis) se resolver voltar para casa a pedalar uma bicicleta depois dos tais shots. Aqui, os parques roubam a cena ao rio, coisa estranha para nós Portugueses e, especialmente, Lisboetas e Tripeiros. Verde no Verão, dourada no Outono, cinzenta no inverno e esperançosa na Primavera. Não é imperial, não é comunista, não é democrática. É tudo isso, e muito antes pelo contrário. Onde todas os lugares mais surpreendentes vão, provavelmente, estar escondidos atrás de uma placa cheia de consoantes e carente em vogais. E por falar em língua, do alfabeto Polaco nem sequer consta a letra “V”. Aqui diz-se Warszawa, embora esta fotografia demonstre o contrario. Contradições – ou, no mínimo, contrastes – portanto.

2.Tal como as línguas, as cidades têm personalidade. Varsóvia tem a personalidade da língua polaca: fechada e difícil de aprender (a terceira mais difícil, segundo os entendidos), no início, livre e fluida, depois, ou pelo menos assim esperamos. Em relação à língua, não à cidade, entenda-se. Cheia de regras, mas também de casos e excepções. A língua. E a cidade.

Quem chega desprevenido tem a sensação de ter entrado num abrigo atómico, claustrofóbico, onde todos desconfiam de todos e o trato é rarefeito. A cidade demora a dar-se a conhecer, estás nas esquinas, no meios dos prédios e nem todos podem entrar. Várias visitas e experiências depois e o que inicialmente parecia mau feitio é apenas uma personalidade forte. Uma cidade que foi ocupada, destruída duas vezes e de novo ocupada, não pode correr riscos. Por isso, nada de amizades de conveniência ou de circunstância, apenas amizades verdadeiras, das que resistem aos percalços da vida e ressurgem sempre com mais força. Queremos ser amigos desta cidade.

3.E, se a ideia é amizade, a primeira dica prática é: evite o Inverno. As estações do ano mudam radicalmente, assim como a paisagem urbana e o quotidiano das pessoas – categoria que inclui os turistas. Temperaturas que chegam aos 30 graus negativos não propiciam, por assim dizer, os novos encontros. Aposte antes na Primavera, Verão e Outono. Nota: se, mesmo assim, optar pelo Inverno, lembre-se que todos os lugares fechados são bastante quentes e secos, ou seja, vale a pena trazer algo digno de público por baixo da camisola de lã.

Não proliferam, mas há uma série de guias “clássicos” com edições de Varsóvia, cheios de sugestões de roteiros também “clássicos”. O mais complicado por aqui é descobrir o que não vem nos guias escritos em Inglês, nem nas revistinhas gratuitas dos hotéis. Pesquisas na Internet são, no geral, bastante frustrantes – a menos que domine o Polaco – para quem está à procura de alguma autenticidade. De qualquer forma um pouco de “mainstream” não faz mal a ninguém e alguns dos passeios mais evidentes também valem à pena.

4.Uma semana antes do Euro, a cidade perde-se em pormenores de última hora. Os mais críticos dirão que a cidade não está preparada e que muito ficou por fazer. A verdade é que os “estaleiros” estão instalados no centro de Varsóvia e o metro não irá estar pronto para o jogo inaugural, dia 8 de Junho. Segundo sabemos, também não era esse o propósito. Desde 1989, a Polónia foi o único país Europeu que nunca entrou em recessão e que apresenta um crescimento consecutivo. Desde 2008, a economia do país cresceu quase 15%, quando a media europeia, para o mesmo periodo, foi de -0.5%.

Entretanto, a Polónia floresce e a sua capital, como não poderia deixar de ser, é o local onde os resultados deste crescimento são mais evidentes. Estima-se que existam hoje 50 mil milionários no país e cerca de 700 mil pessoas com rendimentos mensais superiores a 4500 euros. Este números têm, evidentemente, um reflexo na forma de vida deste país que abandonou o bloco comunista há pouco mais de vinte anos. Não é por acaso que, onde antes era a sede principal do partido comunista, e se poderia ler “A amizade polaco-soviética serve a causa do socialismo e da paz”, hoje é a sede da bolsa de valores polaca e um edifício que representa o oposto dos valores da propaganda da “República Popular da Polónia”. Mas a ironia fica mais saborosa: até um stand da Ferrari encontrou o seu posto no edifício.

Esta vontade do país demonstrar aquilo que já não é tão ostensivo que o visitante atento não demorará muito em descobri-lo. Varsóvia vive a sua fase estética, o que é ainda mais visível na Primavera e no Verão, com as ruas a serem literalmente invadidas por jovens e não menos jovens orgulhosos do seu outfit escolhido criteriosamente para impressionar. Se durante os anos do comunismo a normalização era incentivada ou mesmo imposta, de acordo com os predicados do Realismo Socialista, da roupa à comida, passando pelas própria habitações, hoje poderia dizer-se que a extravagância é a regra.

Integralmente reconstruída depois da 2.ª GG, a arquitectura da cidade (nova) impressiona por corresponder em grande parte a um planeamento ideológico, do Realismo Socialista, pelo menos até a década de 70 do século passado, segundo o qual a arquitectura  deveria também reflectir a ideologia professada pelo partido. O homem comunista tinha uma dieta, um vestuário e também uma habitação que eram definidas directamente em Moscovo e transmitidas à célula do partido em Varsóvia. Esta arquitectura, que transforma Varsóvia numa cidade, diríamos, “soviética”, mereceria um guia autónomo e porventura uma visita especializada, tal é a riqueza histórica dos diferentes conglomerados arquitectónicos que compõem o conjunto edificado durante o período comunista, que impressiona pela sua dimensão no exterior e pelos seus liliputianos interiores. Sim, o homem comunista deveria viver em tipologias pré-definidas – e cada uma não deveria ultrapassar os 35m2 por família.

Tudo isso para voltar ao nosso ponto de partida: Varsóvia não é uma capital Européia óbvia e, na nossa opinião, fica muito mais interessante se for observada e compreendida a partir de um ponto de vista, ao invés de julgada com preconceitos.

5.Varsóvia não tem centro e este, a existir, não está localizado na Cidade Velha (Stare Miasto), devotada à condição de museu a céu aberto pela maioria dos seus habitantes. Pode viver-se em Varsóvia durante uma vida sem nunca visitar a cidade velha – a não ser quando requisitado por amigos estrangeiros.

Esta impossibilidade de centro deve-se, em grande medida, ao edifício emblemático da cidade, o Palácio da Cultura, durante muito tempo o segundo maior arranha-céus da Europa, visível em qualquer ponto da cidade, e que terraplanou o equivalente a dois estádios de futebol onde antes se localizava parte do bairro judeu, destruindo inclusive alguns, dos poucos, edifícios que sobreviveram à 2.ª GG. O Palácio da Cultura foi um presente da União Soviética, cuja arquitectura foi supervisionada pelo próprio Estaline e que é ou era conhecido pelos Varsovianos simplesmente como Pekin (Pequim), uma extrapolação metafórica do acrónimo do edifício (PKIN – Pałac Kultury i Nauki w Warszawie).

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One thought on “De Warszawa com amor – I Parte

  1. Diogo diz:

    Boa, Rui. Bom texto. Abraço. Diogo

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