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Índia / pés descalços, barbas longas e véus coloridos

Guiadas pelo bom karma, a Ana e a Bárbara andaram perdidas de felicidade pelo norte da Índia. Do deserto às montanhas, dos mercados aos templos,  encontraram um país onde a multidão faz a paisagem e a paisagem vive nas alegres ruas da amargura.

“Então, como é que foi a viagem?”. Esta foi a pergunta que todos os amigos nos fizeram, e alguns ainda fazem, desde que chegámos. “Hummm… heeeee… heeeee…”, hesitámos tanto, que até parecia que não tínhamos gostado. O que não era de todo verdade. Mas é tão difícil explicar, ou tão simplesmente contar a experiência da Índia. Não há lugares comuns nem pontos de referência que nos ajudem. Era preciso inventar palavras novas para poder dizer tudo o que vimos e tudo o que vivemos, a Índia é tão fora deste mundo, que só quem lá esteve é que consegue entender esta limitação da nossa expressão. Mas como estas são as palavras que temos, confiamos nas entrelinhas para seguirmos viagem.

Caos, ruído, encontrões e muita gente

Nunca se está preparado para a Índia. Por mais livros, guias e mapas que se estudem, por mais imagens e fotografias que se vejam, até lá chegar, não se sabe para o que se vai. E mesmo quando lá chegámos, continuámos presas num qualquer trânsito cultural que levou uns bons três dias a desengarrafar.

O nosso vôo deixou-nos em Delhi. Saímos do Aeroporto com uma mochila a menos às costas (perdida pela companhia aérea em local desconhecido), numa busca desorientada pela estação de comboios de Nova Delhi. (Acabadinhas de chegar de treze horas de viagem e já nos íamos meter num comboio de mais dezassete até Jaisalmer.) Mas a viagem começava em Old Delhi, é claro que estávamos completamente enganadas, e assim começou o caos.

Em Delhi há demasiada informação para absorver. Barulho, ruído, o som e a fúria. Tudo choca, tudo nos choca como se estivéssemos numa pista endiabrada de carrinhos de choque, perdidas num trânsito sem horas, de buzinas sem lei. Verdadeiras baratas tontas enlatadas, num rickshaw cheio de estrica, naquele ataque de nervos de cidade.

Dourado, azul, cor-de-rosa e branco.

Viajar em segunda classe AC em comboios indianos é um sonhinho para quem traz atreladas horas de espera, escalas, aeroportos e estações, uma porrada de encontrões, calcadelas e buzinadelas, a cabeça pesada e os ombros doridos. As dezassete horas dormiram-se num instante.

Acordámos em Jaisalmer, a cidade dourada suspensa sobre o deserto Thar. Contrariámos as recomendações Lonely Planet e fomos encontrar casa, família, cama e mesa postas no Forte. No Shreenath Palace Hotel  descobrimos um outro forte de laços empedrados e ternos, que tornaram os nossos dias em Jaisalmer numa das memórias mais queridas da Índia. Levaram-nos massagens à cama; ensinaram-nos a regatear; recomendaram-nos os mais saborosos restaurantes; impingiram-nos religiosamente os Jain Temples; chamaram-nos o melhor rickshaw driver que nos levou aos delicados Havelis (apesar dos muitos e feiosos morcegos no tecto) e ao lamechas Lago Gadi Sagar; carregaram-nos até aos camelos e os camelos até ao deserto; e atiraram-nos para o calor, as moscas e a confusão da cidade. Deixámos Jaisalmer com o coração apertado e a promessa de um dia voltarmos àquela família, “não como turistas, mas como boas amigas” disse-nos o Raj e abraçou-nos o Omjee.

Passámos do dourado ao azul. Deixámos o caos calmo e controlado e entrámos num frenesim desassossegado de ruas apinhadas de gente e comércio. A respingada cidade azul é uma terra de mercadorias às costas e pregão carregado, onde a miséria é mais espevitada e o lixo cheira ainda mais a lixo. E se em Jaisalmer se curtem as peles, em Jodhpur tecem-se os  tecidos (não é por acaso que os grandes designers da alta costura se encontram em álbuns de fotografias de braço dado com os donos das lojas). Aliás, se Jodhpur fosse uma tapeçaria, era azul. Tinha altos-relevos bordados em cores garridas e cruzavam-se tecidos esvoaçantes e trapos descorados em quadrados índigo. A tapeçaria já não é lavada há muito tempo. Há nódoas feias, há zonas surrentas e encardidas mas tudo se dilui neste azul tranquilo, de forte, de feiras, de casas, muralhas e palácios reconvertidos, onde se apura masala e se queima o Jasmim. E quando anoitece, a tapeçaria azul vira manta de retalhos de gente.

Até ficámos com outra cor quando recuperámos a mochila perdida – cor-de-rosinhas, a fazer pendant com a Pink City de Jaipur (afinal o sistema indiano funciona). A capital do Rajastão não tem muito que se lhe diga. Depois de ouro sobre azul, vem a prata. E Jaipur vende prata aos lingotes.

Corremos a cidade numa Piaggio quitada com alto sonoro e estofos a lembrar o Texas, guiada pelo mais romântico e sentimental rickshaw driver do sítio – o Aslam. Com ele seguimos o rasto do Forte Tigre de Jaipur, predador de montes, de elefantes e de japoneses; andámos à caça de macacos de cara feia e à cata de bandidos escondidos no Lago do Palácio; farejámos templos, mercados e fogo de artifício; e ao fim do dia entrámos na pequena cidade cor-de-rosa-velho-enrugado levadas por um Palácio de Vento e uma rajada de consumismo. Deixámos Jaipur com duas horas de atraso e um furo no escape do rickshaw do Aslam.

Durante a noite da viagem para Udaipur, as grandes planícies levantaram-se, fizeram a cama de lençóis de água e mantas verdes e vieram acordar-nos numa cidade branca, com todas as cores dentro.

Udaipur são lagos e palácios, serenidade e passeios. Uma Veneza que flutua na extremidade do Rajastão, onde florescem hotéis de luxo e restaurantes de charme. Aqui a Índia vive-se à luz do dia, entre o comércio de pinturas, postais e cadernos pele de camelo; entre músicos, guias turísticos e lavadeiras de saris. Mas se anoitece, perdem-se as certezas dos lugares e volta-se ao continente dos bons e velhos europeus. Deixa-se a cidade com uma pinta na testa e siga para Agra.

Taj Mahal ­— check; foto com o dedinho no Taj Mahal­­ — check; pôr-do-sol nos jardins em frente ao Taj Mahal — check.

Krishna, Shiva, Ganesha, Hanuman, Alá, Deus

Na Índia a religião caminha pelas ruas de pés descalços, barbas longas e véus coloridos sobre a cabeça. Cheira a incenso, a fruta podre e a fezes sagradas. Dorme em catres imundos amontoados em vielas macilentas. Junta as mãos, ajoelha-se e prostra-se. A religião são deuses esculpidos nas paredes, gravados em posters e desenhados em postais. São brincos nas narinas, pintas na testa e arabescos de henna tatuados nas mãos. Namastê, Hari Om, Hare Krishna, Hare Hare.

E em Varanasi a religião desagua. O rio flui do céu para lavar os pecados e purifica-se a alma em águas lamacentas. Nas margens do Ganges, os ghats acolhem os que acreditam. No caudal atravessam os que precisam de ver para acreditar. Barcos de turistas calados, de olhar atento a quem acorda e a quem eternamente adormece neste rio. E nesse estremecimento, enche-se-nos o olhar de medo aos pedaços de homens que ainda flutuam no Ganges. Os motores calam-se, atracados de lama cinzenta, nesse porto seguro de quem parte para sempre.

Em Amristar também a água é sagrada, de um outro céu e de um único deus que arma homens robustos de barba longa, com espada e turbante. Protegidos num templo de ouro, os sikhs lêem ininterruptamente o Guru Granth Sahib, o livro sagrado do sikhismo. Nós, tirámos as sandálias, escondemos o cabelo num véu e entrámos, caminhando devagar, sem pressas. O Golden Temple está lá, cercado de ouro e de água, guardado por mármores cândidos e pela devoção dos que mergulham, dos que se lavam, dos que se estendem ou se deitam, dos que cruzam as pernas e cantam.

Indianos, paquistaneses e tibetanos.

Na fronteira Índia-Paquistão há uma cidade onde indianos e paquistaneses se picam. De um lado barbudos honrados, carregados de escuro a trovoar tambores. Do outro agita-se a anca de braços no ar enquanto os altifalantes chiam o último hit de Bollywood. Ao sinal da corneta a cerimónia começa. Em passo de ganso, os soldados de um lado e do outro, pavoneiam gravemente as suas respeitosas cristas. Grita a nação, desgarrada, o nome da sua pátria. Um duelo de caixas torácicas e gargantas afinadas. Hasteiam-se as bandeiras, apertam-se as mãos e fecham-se outra vez as fronteiras. E no meio da rebaldaria, estávamos nós, com os nervos em franja a torcer pelos nossos.

Mas a Índia não se pica com toda a gente. Em Mcleod Ganj, indianos e tibetanos juntam-se à mesa e torcem uns pelos outros. Na zona alta de Dhramshala o governo do Tibete está em exílio. O Dalai Lama também, e isso sente-se. Aqui a espiritualidade veste túnicas costuradas à mão e rapa a cabeça, a fome come com pauzinhos e o sorriso tem olhos em bico.

Nos Himalaias não há montes, só há montanhas. Montanhas que não se agarram num olhar só, é preciso olhar muitas vezes, para os muitos lados das tantas montanhas.  É um retiro para o mundo, um escape para fugitivos que procuram encontrar-se. Uma outra realidade, mais alta, para quem lá chega. Um jardim de yoga, uma redoma de reiki, uma marquesa tailandesa, balinesa, sueca, chinesa e indiana, uma cozinha de aulas, um templo de filosofia.

Nós vestimos a camisola, comemos-lhe o pão,  aprendemos-lhe os momos e a generosidade, abrimo-nos aos canais de energia e à luz de um breve aceno do Dalai Lama e deixámo-nos planar.

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